segunda-feira, 27 de julho de 2009

SERIA TRÁGICO, SE NÃO FOSSE CÔMICO







escrito para a Revista Brasileiros
edição n° 24 – Julho de 2009
http://www.revistabrasileiros.com.br/


Fui apresentado ao estranho poder da voz de Florence Foster Jenkins na década de 1970 por Naum Alves de Souza, um criador antenado e renomado autor e diretor de teatro. Posso me lembrar claramente como fui atingido por aqueles grunhidos extraterrestres como se fosse hoje. Estranhávamos àquela época, como alguém com aquela voz e com aquele visual poderia ter ficado tanto tempo desconhecido dos verdadeiros amantes da arte como nós. Passávamos horas ouvindo aquele long play falando sobre a Florence e tentando entender o que a levou a tomar atitudes tão contundentes e radicais em sua vida e, também, o que levaria um ser humano tão desprovido de talento vocal a perseguir uma carreira lírica com tanto afinco. Riamos muito, de nos contorcer, e ao mesmo tempo nos enternecia saborear as poucas imagens às quais podíamos ter acesso daquela figura quase uma precursora das drag queens. Fazíamos cópias piratas de suas músicas em fitas cassete e distribuímos para os amigos mais íntimos. Estava criada, antes mesmo do evento da internet, o “twitter” da Florence Foster Jenkins. Éramos seus fiéis seguidores, só falávamos dela, só pensávamos nela.

O tempo passou e com a chegada da rede global de comunicação aprendemos que a Florence não é muito diferente dos milhares de usuários da web que hoje se expõem sem pudores através de pequenos vídeos caseiros. Basta uma “googada” e qualquer um pode apreciar os mistérios e as esquisitices da raça humana.

A idéia de se montar um musical sobre a vida dessa admirável criatura é no mínimo uma homenagem àqueles que têm um sonho e o perseguem até o fim. Florence “had a dream” (tinha um sonho) e o realizou. Sem pudores, como Luther King, Obama e Susan Boyle.

Dando uma pesquisada na internet encontrei várias montagens, mundo afora, da vida de Florence e fiquei feliz em saber que finalmente depois de mais de 50 anos de sua morte, e quase 130 de seu nascimento, ela finalmente teve seu talento reconhecido.

O roteiro de Peter Quilter, escolhido para a montagem de Gloriosa, em cartaz no Teatro Procópio Ferreira, dá apenas uma pequena idéia do que deve ter sido essa grande figura do universo lírico americano do início do século passado e mostra que Florence Foster Jenkins era a “piada” mais popular de Nova York nos anos 1940. E por conta disso, era amada pela sua platéia. Dizem que os ingressos para os recitais anuais que protagonizava no Hotel Ritz eram disputados a tapa. Com medo de atrair uma platéia hostil ela entrevistava cada um dos compradores dos ingressos. À sua platéia, formada em sua maioria por mulheres que pertenciam às instituições de caridade que ela presidia, além de grandes nomes como Cole Porter, Irving Berlin e Noel Coward, ela oferecia um repertório caprichado (Mozart, Verdi, Strauss) com uma peculiaridade: conseguia realizar as piores interpretações que estes compositores já tiveram em toda a história. Seria trágico se não fosse cômico.

A vida de Florence chega aos palcos brasileiros através dos diretores Charles Möeller e Claudio Botelho, com produção de Sandro Chaim, e na interpretação da talentosa artista multi-tarefas Marília Pêra que transita com tranquilidade entre o drama e a comédia com a mesma qualidade de interpretação. O elenco conta ainda com as competentes interpretações de Eduardo Galvão, como o fiel pianista Cosme McMoon, e de Guida Viana em variados papéis.

É difícil dizer o que Marília Pêra faz melhor, mas vendo sua Jenkins ouso afirmar que é na comédia deslavada, ou ainda nos exageros técnicos, que ela se sente mais em casa. Seu saltitar, sua cara de pau em dizer as bobagens contidas no texto e seu despudor são no mínimo o “crème de la crème” do teatro popular contemporâneo.

“A composição desta personagem foi extremamente difícil para mim, porque passei a minha vida inteira aprendendo a cantar e me aprimorando. De repente, tenho que fazer justamente o contrário, desafinar. Foi uma verdadeira desconstrução da minha voz.”, comenta Marília. Ela que passou toda a sua vida cuidando da voz e de seus gorjeios é obrigada a desafinar como uma galinha estrangulada e cumpre muito bem a tarefa. Suas interpretações de Rainha da Noite, de Mozart e de A Risada de Adele, de Strauss são um verdadeiro delírio. A platéia ao vê-la e ouvi-la aplaude seus acertados erros propositais.

Florence esteja onde estiver, deve estar se sentindo presenteada.

Gloriosa
Teatro Procópio Ferreira – São Paulo
Tel. 11 3083.4475

sexta-feira, 19 de junho de 2009

VICIADO PELO PODER

escrito para a Revista Brasileiros
edição n° 23 – Junho de 2009
A história de José Carlos começa quando ele é um adolescente e é considerado o filho “problema” , que gosta de fumar um “baseadinho” e sem grandes ambições. Manipulado pela família, classe média, quase que obrigado, entra para o serviço público. Pouco afeito a botar a mão na massa, por pura sorte, acaba sendo aprovado em um concurso através de um teste de múltipla escolha e chega ao seu primeiro emprego. De múltiplas em múltiplas escolhas ele acaba sendo o escolhido para participar ativamente da história recente do Brasil. Aprende a manipular dados e pessoas e chega a Brasília como laranja e acaba desenvolvendo talento para ser lobista. De lobista a candidato e depois eleito deputado, alterna suas ações entre manipulador e manipulado sem o menor pudor. Condena as ações de seus amigos políticos e instantaneamente muda de lado, apoiado por teorias das mais convincentes. A sua própria sobrevivência depende de vacinas muitas vezes desenvolvidas com o vírus mutante da vida política. Dando nome aos bois, tancredos, sarneys, collors, fhcs, lulas, José Carlos se mantém vivo respaldado pela bancada evangélica, na Corte do Serrado.
Sem ser panfletário, nem maniqueísta, o Mediano, de Otávio Martins, diverte e nos adverte que as coisas são mesmo assim: lá e cá. Fazemos parte de um grupo de animais quase racionais prontos para agir em defesa própria. Principalmente quando o caminho nos é facilitado. Temos tido ótimos exemplos disso não somente na política como também no futebol. O que importa é o nosso potencial de arremesso a gol, não importando contra quem estamos jogando. Atacamos e defendemos, em nome da democracia, mas baseados muito mais na defesa de nossos próprios espaços. Outro ponto positivo da escrita de Otávio é a denuncia de uma quantidade enorme de profecias estrondosas que somos capazes de fazer sabendo que elas tem noventa por cento de chance de não se concretizarem. A personagem afirma categoricamente que o “moço das alagoas”, o “sociólogo” e o “operário barbudinho” jamais chegarão ao poder e num piscar de olhos divide com eles as cenas palacianas.
José Carlos é vivido por Marco Antonio Pâmio um ator que tem se preocupado em oferecer ao público participações primorosas em obras como Pobre Super Homem, Longa Jornada Noite a Dentro, Pedra nos Bolsos e tantas outras. São 25 anos de serviços prestados ao bom teatro. A atuação de Pâmio em “Mediano” , seu primeiro monólogo, é irrepreensível. Apoiado por uma cenografia muito simples, ele nos apresenta criaturas, homens e mulheres, muito diferentes. Familiares preocupados com as suas crias, crias preocupadas com as suas micro-vidas e uma quantidade interminável de personagens que conhecemos tão bem: nós mesmos.
A direção precisa de Naum Alves de Souza dá a certeza ao Marco Antonio Pâmio que mesmo atuando em um monólogo o ator não pode, nem deve, se sentir só. Tudo é bem cuidado e cada movimento seja físico ou mental está acompanhado da sabedoria de um mestre da direção. Nada é banal.
Depois de cumprir curtíssima temporada no SESC Pinheiros, “Mediano” de Otávio Martins se atira na realidade teatral da praça Roosevelt, mais precisamente no Teatro Parlapatões.


MEDIANO – Reestréia dia 20 de Junho, no Espaço dos Parlapatões. Pça. Roosevelt, 158. T. 3170-4059. Espetáculo recomendável para maiores de 14 anos. – Sábados à meia-noite. R$ 30,00 (inteira) R$ 15,00 meia. Até 25 de julho.



terça-feira, 24 de março de 2009

A GENÉTICA DE NELSON




escrito para a Revista Brasileiros
edição n° 19 – Fevereiro de 2009
http://www.revistabrasileiros.com.br/



A montagem teatral carioca Cachorro!, de Jô Bilac, invade a nossa praia pela segunda vez depois de curta temporada de sucesso há mais ou menos um ano atrás no SESC Paulista. De volta ao Rio eles cumpriram pequenas temporadas em alguns espaços e agora eles se apresentam no espaço da Caixa Econômica Federal da Praça da Sé, também por um tempo muito reduzido. Para falar a verdade essas temporadas muito breves me incomodam um pouco, pois quando os espetáculos começam a formar seu público, chega a hora de abandonar o espaço. É preciso que os programadores confiem mais em suas descobertas e invistam mais na divulgação do teatro emergente.

Em Cachorro!, sem medo de comparações com as obras de Nelson Rodrigues, Jô Bilac bebe com muita sede o que o mestre das relações familiares e amorosas – muitas vezes as duas coisas ao mesmo tempo - nos ensinou e isso resulta em uma dramaturgia fresca, ácida e muito consistente. Puro Nelson, mas geneticamente modificado.

Um triângulo amoroso se apresenta desde os primeiros minutos da ação e manipulando frágeis painéis translúcidos – que por vezes revelam as cenas e que quando necessário as esconde, os três jovens atores utilizam uma linguagem corporal contemporânea que acentua a dramaticidade cômica do texto acompanhada pela sensual trilha sonora assinada por Diogo Ahmed.

Os atores Carolina Pismel, Felipe Abib e Paulo Verlings apesar da pouca idade compreendem esse universo rodriguiano e encantam os espectadores jovens apresentando esse universo dolorido e divertido, como num ritual de passagem. Todos se deleitam com suas atuações irrepreensíveis.

O cenário de Daniele Geammal é formado por divisórias que funcionam como separação das cenas e muitas vezes, apoiados pela luz precisa de Paulo Cesar Medeiros, nos remete ao teatro de sombras nos transformando em “voyeurs” de momentos proibidos.

A direção precisa de Vinícius Arneiro oferece ao grupo a certeza de estarem trilhando o caminho correto para que exagerem nas tintas quando é necessário e tirem o pé do acelerador quando a trama assim exige. E, para ser honesto, é no exagero que a montagem acaba pegando a platéia de maneira irreversível.

Enfim: boa dramaturgia, ótimas atuações, direção madura. O que mais pode-se desejar?

Além da temporada paulista Cachorro! cumprirá extensa temporada Brasil afora.


Agenda
12 a 22/02 Caixa Cultural São Paulo – SP 28/02a 24/05 Circuito SESI – SP. Todos os finais de semana.23/03 São Luiz do Maranhão24/03 Sousa – Paraíba – "Festival de Teatro do BNB"25/03 Juazeiro do Norte – Ceará - "Festival de Teatro do BNB"26/03 Fortaleza – Ceará – "Festival de Teatro do BNB"13/06 Uberaba – Minas Gerais.
Site:
www.teatroindependente.com.br

domingo, 1 de fevereiro de 2009

AS ÁGUAS DE MÁRCIA





escrito para a Revista Brasileiros
edição n° 18 – Janeiro de 2009

Há algum tempo venho acompanhando a criação de Márcia Milhazes frente à sua pequena companhia de dança e confesso que a cada nova estréia ou, até mesmo, a cada vez que eu revejo algum de seus trabalhos, eu tremo nas bases diante de uma dramaturgia das mais complexas e instigantes.

Em 2007, a Cia Márcia Milhazes apresentou Tempo de Verão que recebeu vários prêmios da crítica especializada. Em agosto deste ano, estreou Meu Prazer e já se apresentou em São Paulo e Rio de Janeiro. Em janeiro de 2009 ela inicia uma turnê nacional, começando por São José dos Campos. Pena, mas as pautas oferecidas para a dança nos teatros ainda é escassa e muito fragmentada.

A nova dança produzida pelo pensamento, pela emoção e pelo movimento, tem me interessado cada vez mais. Muitas vezes mais do que o teatro da palavra. Talvez pela utilização excessiva desses códigos. As criações de Márcia Milhazes Companhia de Dança me fazem olhar com olhos mais atentos essa dramaturgia que apesar de não utilizar palavras grita em alto e bom som todas as emoções que nós mortais vivemos, sonhando que somos imortais. Vale ressaltar que essas afirmações não são válidas para tudo o que tem se produzido pela dança contemporânea.

A alegria e a dor, em Meu Prazer, ocupam o mesmo espaço cênico e através de movimentos minuciosamente criados por Márcia Milhazes, e executados com perfeição pelos interpretes, nos fazem viajar por águas mansas e turbulentas que dominam a maior parte de nossa estrutura – dizem que nossa composição chega a mais de 60% de água. E, em alguns casos, ao ver Meu Prazer, essas águas transbordam e escorrem pelo canal lacrimal. Pura emoção.

De encontros e desencontros, de humano e desumano, a dramaturgia de Meu Prazer nos conta um pouco desse nosso cotidiano lidando com nosso prazer e sentimentos. As escolhas dos movimentos nos aproximam mais dos nossos erros e acertos em relação ao outro e a nós mesmos.

Al Crisppinn, Ana Amélia Vianna, Felipe Padilha e Fernanda Reis são parceiros de Márcia Milhazes em Meu Prazer e não economizam mesmo na mais profunda crise. Eles desenham com perfeição esse universo de corpos que se resvalam delicadamente, na maioria das vezes.

O jardim suspenso criado por Beatriz Milhazes para Meu Prazer repete o acerto de Tempo de Verão. As cores de seus cenários – objetos nos ajudam a flutuar com os movimentos criados pela coreografa. Ambas, Márcia e Beatriz, utilizam o mais elaborado dos processos de criação e que resultam extremamente simples.

A trilha sonora, também assinada por Márcia Milhazes, envolve a cena e tem a função de pele para esses corpos. Fala explicitamente de amor, com sotaque bem brasileiro. Valsas, solos de piano e acordeão e a voz de Francisco Alves em Misterioso Amor.

Se Márcia Milhazes prefere ficar “trancada para criar”, como ela mesma afirma, ela utiliza todas as janelas do corpo para gritar a sua dramaturgia emocionada e emocionante, deixando claro que o que está sendo desvendado é o humano ou o sobre-humano.

sábado, 24 de janeiro de 2009

MONSTRA NADA SAGRADA




escrito para a Revista Brasileiros
edição n° 16 – Novembro de 2008
www.revistabrasileiros.com.br

Ao ver o cartaz de Monstra, arte de Luiz Stein, aqueles que como eu achavam que a dama do teatro de humor carioca Patricya Travassos, que enlouqueceu platéias quando se apresentou em Trate-me Leão, do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, tinha sido seqüestrada e era mantida como refém por uma abóbora hidropônica por sua atuação em Alternativa Saúde, do GNT, podem respirar aliviados.No palco do Teatro dos Quatro, em seu espetáculo Monstra, ela está livre tanto das leguminosas criminosas e, até mesmo, das comidas orgânicas. Livre, também, de seu linguajar 'geenetesco', politicamente correto. Já na abertura do espetáculo, ela deixa claro que não está ali para se policiar e enfia o pé na jaca, antes mesmo de pisar no palco. Entrando pela platéia, ela já prepara a todos para o que eles irão ver e, de cara, arranca os sapatos de uma das espectadoras porque esqueceu os dela em casa.Ela vive Maria Helena, que chega ao teatro com o pretexto de ministrar uma palestra de auto-ajuda e cai em suas próprias armadilhas, pois percebe que os sábios toques que pretendia dar aos presentes não funcionam nem para si mesma.Isso posto, passa o resto do tempo regulamentar lidando com suas próprias inseguranças até se transformar na tão esperada mulher-monstra.De seu livro, Monstra e outras crônicas da revista Marie Claire, recentemente lançado pela Editora Globo, Patricya selecionou, com a ajuda do diretor Jorge Fernando, algumas delas e as transformou em dramaturgia.Segundo a própria Patricya, essas histórias foram colecionadas a partir de suas saídas pela cidade e, é claro, algumas criadas por ela, sempre inspiradas em sua experiência pessoal e de suas amigas. Ela garante que não são histórias autobiográficas.Patricya nada de braçada em águas tão familiares para ela, o humor escancarado, e nessa tragicomédia singular arranca da platéia as mais deliciosas gargalhadas. Tudo sem o menor pudor.A direção de Jorge Fernando, que também conhece muito bem esse universo do humor deslavado, colabora de maneira fundamental para que o espetáculo tenha o resultado desejado.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Ver ou rever Irma Vap. Eis a questão.



Fotos: Priscila Prade

escrito para a Revista Brasileiros
edição n° 15 – Outubro de 2008
www.revistabrasileiros.com.br


Ir ao teatro para assistir a uma nova versão de um espetáculo que marcou positivamente a nossa vida cultural gera no mínimo uma insegurança imensa. A situação é mais dramática quando a primeira versão tinha em cena Marco Nanini e Ney Latorraca, dois mestres da arte de interpretar. Dois monstros sagrados na arte de fazer rir.A qualidade da montagem será a mesma? Será que vou me divertir como há 20 anos? Será que os atores que estão interpretando os papéis perpetuados por aquela dupla de atores considerada imbatível vão dar conta do recado? Será que aquela cena vai ser tão prazerosa como foi da primeira vez em que a vi? Será que eles vão conseguir fazer tudo aquilo? O texto envelheceu? Será que será?Acredito que é assim que reagem os que vão ao Teatro Frei Caneca rever Irma Vap, de Charles Ludlam, direção de Marília Pêra, que também assinava a primeira montagem.O mais complicado de se estar na estrada há muito tempo, é que começa a pipocar na sua frente aquela fila interminável de remontagens. E não apenas no teatro. No teatro falado apenas os clássicos tinham esse direito e são reencenados sempre dependendo da idade dos atores. A certa altura da carreira alguém decide: "Estou pronto para fazer Hamlet", depois de um tempo é o momento de "estar pronto para interpretar Édipo", até chegar ao "estar pronto para o Rei Lear". Poucos vivem tempo suficiente para cumprir todas essas etapas, principalmente a última.Hoje as remontagens populares tomam conta das salas de espetáculo, mesmo sem que os textos sejam considerados clássicos. Só de espetáculos que envolvem o nome da Marília Pêra de alguma maneira são três: Brincando Em Cima Daquilo, Doce Deleite e finalmente Irma Vap. Crise na dramaturgia? Desinteresse pelo momento cultural em que vivemos? Ou apenas facilidade na busca de patrocínios?Irma Vap poderia facilmente ser colocada nessa última categoria. Ledo engano. A nova montagem, que acaba de estrear, o faz sem aquela lista interminável de patrocinadores e apoiadores e pode inaugurar uma retomada aos bons e velhos tempos quando os produtores associados investiam seus próprios recursos e aguardavam o resultado da bilheteria.Ao abrir da cortina, passado o susto inicial de não encontrarmos o Ney nem o Nanini, dá para relaxar e aproveitar as composições exuberantes de Marcelo Médici e Cássio Scapin para as diversas personagens que se alternam em cena sem deixar um segundo apenas para que respiremos. Como se fosse mágica, eles se retiram de cena pela direita e retornam pela esquerda vestidos de maneira totalmente diferente e impregnados por outras almas. Outras personagens.Os que estão sendo apresentados à Irma Vap pela primeira vez apenas se deleitam. Sem culpa e sem sofrimento e pode-se dizer que o espetáculo encanta os mais jovens como o fez na década de 1980. Com um humor simples, sem ser simplório, o texto ainda envolve a todos. Até mesmo os mais saudosistas, que insistiam em dizer que a montagem dos anos 1980 era melhor, mesmo sem ter ainda assistido a essa.Marcelo Médici usa e abusa de seus talentos para propiciar a todos momentos inesquecíveis. Sem pudor cênico, dá vida a uma Lady Enid repleta de detalhes criativos, assim como ao gentil homem, dublê de lobo, que trabalha na mansão assombrada.Cássio Scapin é mais contido e sua aparente seriedade lhe serve como contraponto para as hilariantes cenas em que protagoniza. Seja só, ou acompanhado, desenha com precisão as personagens que lhe cabem no vasto latifúndio do autor somadas as propostas da direção. E por que não dizer dos próprios atores que criam "cacos" baseados em outras de suas experiências cênicas. Pelo menos duas referências são feitas à atuação dele em outro Castelo, o do Nino.A direção de Marília Pêra prefere não fugir muito da proposta que já havia sido experimentada por ela na montagem anterior e se priva de utilizar mais tecnologia virtual que poderia dar mais atualidade à nova encenação, e seria muito bem-vinda. Haveria de se levar em conta que a nossa vida é muito mais agitada do que na época em que Irma nos visitou pela primeira vez.Os cenários e figurinos de Fábio Namatame são competentes e servem com perfeição para a montagem proposta, e se por um lado não surpreendem por não trazer aquele toque de "revisitando Irma", nos remetem delicadamente ao que já estávamos esperando.A diversão para o público é garantida e, para os produtores, além do prazer do reconhecimento do público e dos números ($$$) da bilheteria, traz aquele gosto do sucesso que só as produções independentes sentem. Será que as nossas produções já estão maduras para não depender das tais engessadas leis de incentivo?

TEATRO SHOPPING FREI CANECA
R. Frei Caneca, 569. Shopp. Frei Caneca. Consolação. T.3472.2229. Estac. do shopping. 600lug.Qui e sex, 21h30; sab, 21h; dom, 19h. R$60 (qui e sex) e R$70 (sab e dom). 10 anos.

Nossas Medeias e Jocastas




fotos: João Caldas

escrito para a Revista Brasileiros
edição n° 12 – Julho de 2008
www.revistabrasileiros.com.br


Uma história simples. Mãe viúva, filho único, uma empregada doméstica fiel. Todos eles têm sonhos e correm atrás deles. A mãe aproveita seus talentos culinários e abre um restaurante. Ele quer ser cineasta e parte para o Canadá para estudar cinema. A empregada doméstica sonha ser funcionária e segue a patroa como auxiliar da cozinha do restaurante. Poderia aí começar o desenho de um final feliz, sem questionamentos, mas são agregados novos e cotidianos ingredientes. Para manter os clientes, seria necessária uma constante renovação no cardápio do restaurante, mas a "chef" resiste a fazer mudanças. A vida dos outros personagens muda e a adaptação é difícil.Desde seu primeiro texto, encenado na década de 1980, Prepare Seus Pés para o Verão, ficava muito claro sobre o que Marta Góes queria falar e de que maneira iria fazê-lo. Os personagens do cotidiano seriam os seus alvos principais. Em A Reserva, que estreou no Teatro Cosipa, Marta continua fiel a suas idéias. É um prazer reconhecer seu estilo logo nas primeiras falas do espetáculo. Coisa rara nos dias de hoje, em que temos a sensação de que um único autor escreve tudo o que vemos. Seu texto faz com que enxerguemos os atos cotidianos através de uma lente, não de aumento, mas de foco apurado. E, abusando do humor refinado, o texto nos pega de jeito até nos rendermos emocionados à delicadeza com que ela aborda temas doloridos sem cair no dramalhão. A Reserva nos faz refletir sobre nossas próprias histórias e, em alguns momentos, até nos induz ao melodrama pessoal. Gera um sentimento dolorido e em seguida nos faz rir de nossa autocompaixão. Dói, mas é bom; diverte, mas dói. Receita perfeita. Em A Reserva, Marta Góes revela camada por camada dessas personagens e nada de braçada quando mescla seu humor doce ao sabor amargo do dia-a-dia.Grandes heroínas são muito mais fáceis de ser desenvolvidas como personagens; o difícil é dar consistência a esse universo cotidiano repleto de pequenos gestos e grandes emoções: Medéias e Jocastas de forno e fogão.Impossível não se render à interpretação de Irene Ravache. Ela é Vera, a mãe: a dela, a minha, a nossa, nós mesmos. Ela, Vera, declara amor incondicional por sua arte de cozinhar. Irene entende e mergulha fundo, e nos oferece o melhor prato: seu talento. Os textos de Marta já tiveram grandes intérpretes - Marisa Orth, Regina Braga, Tânia Bondezan -, mas é na interpretação de Irene Ravache que suas palavras alçam vôo e nos atingem visceralmente. Irene interpreta essa mulher com tanta sabedoria e emoção que se torna uma arma mortal para os menos avisados. A platéia se deleita com sua fala mansa, sua ironia e sabedoria cênica.Patrícia Gasppar vive Madalena - a empregada que vira assistente de cozinha no restaurante -, e ninguém melhor que ela para compreender esse universo delicado proposto pelo texto e pela direção. Patrícia transforma Madalena em protagonista de uma história paralela - a sua própria história -, sem abandonar por um momento sequer o barco da trama central. Quando usa seu talento para as cenas de humor, Patrícia arranca gargalhadas da platéia. Sua interpretação de "She", de Charles Aznavour, com letra adaptada para a compreensão tosca da personagem, diverte e ao mesmo tempo continua escrevendo essa história tão conhecida de todos nós. Na maioria das vezes não sabemos sobre o que falamos, mas nossas histórias vão se completando no tropeço de um texto inventado.Evandro Soldatelli vive Zeca, o filho de Vera, e como um bom filho se alimenta e se aproveita do contato com essas mulheres (mãe, atrizes, autora e diretora) e convence a platéia.A montagem é extremamente bem cuidada e envolve profissionais dos mais experientes. A direção competente de Regina Galdino, sem invadir, dá suporte a todas essas qualidades. O cenário criado por Fábio Namatame veste com sabedoria esse recorte do cotidiano e através de seus nichos, recheados com elementos difusos que, ao ser iluminados, protegem e revelam a memória de cada instante vivido pela personagem central, complementam a escrita de Marta.A trilha sonora de George Freire está lá, mas não avança o sinal em momento algum, acompanhando a iluminação competente de Ney Bofante. Nada melhor do que uma comida caseira para saciar nossa fome.
SERVIÇOA Reserva, de Marta Góes, com Irene Ravache, Patrícia Gasppar e Evandro Soldatelli, direção de Regina Galdino.Teatro  Cosipa CulturaAvenida do Café, 277, Jabaquara, metrô Conceição. Estacionamento em frente. Vale a pena ir de metrô.Tel. (11) 5070-7018